quinta-feira, 7 de julho de 2011

Inventando um modelo de negócios

DIA DE PRETO conta com um modelo de negócios inovador, elaborado pelos realizadores do filme ao longo de uma década de trabalho. Sem conseguir acesso às fontes tradicionais de financiamento público, a produção se valeu do apoio de empresas como o RIOSHOPPING, a RICA ALIMENTOS e a MATTEDI, que forneceu equipamentos cinematográficos como o Tedicam, utilizado em quase todas as cenas do filme, na foto acima. Empresas que acreditaram no projeto, como a maioria dos lojistas do próprio shopping.

A maior parte da equipe e do elenco também aposta no sucesso da empreitada, e todos são parceiros nos resultados comerciais do projeto. Na foto ao lado, os Diretores Daniel Mattos e Marcos Felipe observam o monitor ligado à câmera, junto à Diretora de Arte e Figurinista Karin Kulnig. Com um orçamento enxuto, especialmente desenhado para a recuperação do investimento, a produção tenta apontar um caminho racional para o desenvolvimento de um modelo de negócios autossustentável no mercado audiovisual brasileiro, infelizmente marcado por orçamentos inflados que geralmente resultam em números modestos de público e renda.

Para viabilizar a empreitada, o desenho de produção previa uma fase de pré-produção muito detalhada, com decupagem completa realizada através de storyboard ou “monstro” (uma espécie de rascunho do filme, feita com câmeras amadoras e a própria equipe como “elenco”), que levou cerca de um ano de trabalho no próprio shopping. A montagem acima apresenta algumas das centenas de fotos tiradas nessa fase, que serviram para que os autores-realizadores pudessem adaptar o roteiro do filme à locação, e não o contrário. Com isso, foram diminuídos os custos na fase de produção propriamente dita, quando o “taxímetro” está ligado em diárias de transporte, alimentação e comunicação de uma equipe inteira.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carta de Alforria

O filme DIA DE PRETO conta a história do primeiro escravo libertado no Brasil, a partir de um episódio lendário que teria acontecido em 1661, na região da Porta D’Água, atual bairro da Freguesia de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Nessa época, a “carta de alforria” era o instrumento legal utilizado para conceder a liberdade aos cativos, muito embora a maioria dos seus beneficiários (e até os senhores, diga-se de passagem) fosse analfabeta.

Para a confecção da carta, a equipe de arte do filme realizou uma pesquisa sobre os modelos usados no período, de forma a produzir o tipo de papel, textura e caligrafia similares às do século XVII. Ao lado, você confere uma dessas referências.

O conteúdo da carta cenográfica foi escrito pelo Diretor Marcial Renato. Um texto sobre a própria realização do filme, fazendo uma analogia entre a “libertação” do escravo e o fim da fase de produção, que terminava justamente com a gravação daquelas cenas de época. Uma longa e trabalhosa etapa que, de certa forma, também “escravizou” os realizadores durante bons anos.

A título de curiosidade, apresentamos a íntegra da nossa tão sonhada “Carta de Alforria”, que você confere no texto e imagem abaixo:

“Decorridos 1999 anos do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, três jovens amigos moradores da periferia de São Sebastião do Rio de Janeiro, em nome da liberdade, resolveram se dedicar à produção de um longa-metragem, aventura insana e insalubre.

O que os mancebos não poderiam imaginar é que a audácia da decisão acarretaria um estado de escravidão que duraria pelo menos os oito próximos anos de suas até então curtas vidas, visto que os três contavam apenas vinte e cinco voltas ao redor do sol, tempo equivalente à quarta parte da vida que tinham experimentado quando toparam o desafio.

Da escravidão à angústia, e dessa a uma sucessão de estados de penúria espiritual e material, sempre à porta de possíveis mecenas e outros recursos necessários à realização do projeto. Tentados pelos demônios mais obscuros da alma humana, mergulharam fundo naqueles pecados que só podem ser redimidos pela confissão: a inveja de outros realizadores; a vaidade moral, acadêmica ou profissional; a preguiça de quase desistir; a luxúria de se entregar a prazeres proibidos; a gula de quem quer mais do que o conviva; a avareza para conseguir os fundos que garantiriam o negócio; e a ira causadora de brigas e ofensas que sempre doeram mais no agressor do que no agredido.

Superando a tudo e a todos, mais do que amigos, os três tornaram-se irmãos, de sangue, suor e lágrimas. Justamente por isso, neste dia 26 de novembro, 2007 anos após o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, os três fazem jus à liberdade que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, nem ninguém que não entenda. Sem mais para o momento, eu os declaro alforriados.

PS: Sabendo que era impossível, foram lá e fizeram”

terça-feira, 5 de julho de 2011

Vilões a cavalo

Num dos momentos do filme DIA DE PRETO, o personagem de Marcelo Batista se vê novamente cercado pela gangue liderada por Guilherme Almeida, com um detalhe: a cena se passa no Século XVII! A picape preta dá lugar a imponentes cavalos alazões e o figurino escuro é trocado pelas cores terrosas da época (foto acima), numa locação esplêndida da pequena localidade de Ipiabas, no Vale do Paraíba, perfeita para simular os caminhos de Jacarepaguá num passado remoto.

Realizadas num final de semana prolongado em novembro de 2007, as cenas na encruzilhada contaram com os atores Marcelo Batista e Guilherme Almeida, além dos Capangas vividos por Deivid Araújo, Naiara Hawaii, Heráclito Junior e Andrea Cassali, que na foto acima amparam o Preto como se fosse uma “Pietá” do mato. Todos caracterizados para a época, com coletes, chapéus, botas, rufos e jabôs típicos do figurino colonial do final do Século XVII.




A cena exigia que os atores estivessem montados a cavalo, elemento bem aproveitado por Andrea e Heráclito, que se mostraram bem à vontade com suas montarias. O cavalo de Andrea, entretanto, por pouco não deu trabalho à produção: empolgado com um galope, resolveu parar somente depois de um bom tempo de passeio com a atriz. Na foto ao lado, Andrea posa com Marcelo montada no mustangue bravio que deixou a equipe preocupada.



No comando, os Diretores Marcos Felipe e Daniel Mattos também tiveram trabalho para colocar em cena, na marcação perfeita, os movimentos dos animais. Na foto ao lado, os personagens de Guilherme e Marcelo se encaram na encruzilhada, observados de perto pelos diretores. Na foto abaixo, a gangue seiscentista avança pela trilha, captada pela câmera operada por Marcos.

Nos bastidores, o elenco aproveitou para fechar uma animada roda de violão, comandada por Andrea Cassali e Marcelo Batista, na foto ao lado. Além da música rural que o ambiente pedia, teve espaço para um pouco de MPB, reggae e rock, compondo um repertório bastante eclético.

No vídeo abaixo, você confere os bastidores dessa cena do filme DIA DE PRETO, captada pela câmera de celular do Diretor Marcial Renato. Confira!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Do croqui à cenografia

Algumas das cenas do filme DIA DE PRETO (como a da foto acima, com o ator Ricardo Bonaverti) foram realizadas num estúdio montado numa das lojas do RIOSHOPPING preparada especialmente para a produção. Para a concepção dos cenários, o Diretor de Arte e Cenografia Claudão produziu croquis misturando desenhos, recortes de fotos e colagens, de forma a passar a identidade visual que gostaria de imprimir aos ambientes. Nas fotos ao redor, alguns destes cenários aparecem relacionados aos seus respectivos croquis, mostrando o nível de detalhamento da preparação do filme.

Da prancheta à construção dos cenários, alguns detalhes foram alterados para se adequar à fotografia, e outros aperfeiçoados com a definição das peças cenográficas e objetos de cena. De forma geral, a ideia pré-concebida e aprovada é traduzida fielmente em estúdio, o que facilita o trabalho da equipe de arte.

Na foto ao lado, o banheiro da sala de segurança em dois momentos do filme e no croqui de Claudão, à esquerda.


Na foto abaixo, a toca subterrânea do shopping com suas gaiolas, manequins e outras quinquilharias, em destaque no cenário pronto, à direita.

domingo, 3 de julho de 2011

O Financiamento da Produção

Para viabilizar a produção do filme DIA DE PRETO, os sócios diretores da DEMIAN tiveram de elaborar um modelo de negócio diferente do usual. Orçado em pouco menos de um milhão de Reais, parte do financiamento foi realizado através da coprodução com a CINERAMA BRASILIS (produtora carioca de filmes publicitários), e permutas com lojistas do RIOSHOPPING (shopping de Jacarepaguá que serviu como base de produção e locação para a maioria das cenas, na foto acima), a RICA (empresa de produtos alimentícios) e a MATTEDI (fornecedora de equipamentos cinematográficos), que apoiaram o projeto através do fornecimento gratuito de produtos e serviços, sem patrocínio em dinheiro.

Outra fonte importante foi o investimento indireto de boa parte do elenco e da equipe (na foto ao lado, o Diretor Daniel Mattos, sentado no chão, e a Caracterizadora Kris Kulnig, na cadeira, aguardam a preparação de luz de uma cena com o ator Marcelo Batista), que se tornaram sócios dos resultados do filme, em vez do tradicional cachê de produção. Por ter um orçamento enxuto, mas que potencializa o valor de produção com apoios e parcerias, o filme não precisa ser um “blockbuster” para dar lucro. O que aumenta a responsabilidade e a motivação dos produtores para a exploração comercial do projeto, uma característica de mercados saudáveis.

Para completar o "funding", o investimento direto necessário para o resto da produção e contratação de parte da equipe (eletricistas, maquinistas, cenotécnicos, a “turma da pesada”), apenas uma fração do orçamento total, foi custeado pelo trio de realizadores Daniel Mattos, Marcial Renato e Marcos Felipe (foto acima), roteiristas, produtores e diretores do filme DIA DE PRETO, e pela Produtora Associada Ursula Wetzel.

sábado, 2 de julho de 2011

Uma trupe de cinema no estacionamento do shopping

Em setembro de 2007, um ano após o início das filmagens, a equipe de produção finalmente tinha acabado de captar as cenas noturnas e dado um adeus às madrugadas passadas no shopping center. Assim, os sábados e domingos passaram a ser utilizados para a gravação das cenas no estacionamento do RIOSHOPPING, durante o dia. O novo cronograma possibilitou a presença de amigos e familiares no set, além de muitos curiosos que se juntavam para ver de perto como funciona uma produção cinematográfica e o trabalho do elenco, como Marcelo Batista (deitado) e Naiara Hawaii, na foto acima.


Do frio da madrugada, o calor passou a ser o inimigo da produção. Na foto ao lado, os Diretores Daniel Mattos e Marcos Felipe discutem os detalhes da filmagem protegidos por chapéu, boné e o guarda-sol da câmera . Até mesmo o butterfly utilizado na cena, uma espécie de “tenda” protetora para amenizar e/ou rebater a luminosidade externa, servia como abrigo contra o sol primaveril, mas com força de verão a pino. Pior para o personagem de Marcelo Batista, que tinha de encarar o clima correndo e rolando repetidas vezes, além de deitar no asfalto quente, como na foto abaixo, observado pelo Diretor Marcos Felipe e enquadrado pela câmera do Diretor de Fotografia Gustavo Nasr, auxiliado pelo Assistente de Maquinária Pereira.

O bom astral na locação, num clima familiar total, servia para amenizar o perrengue. Na foto abaixo, as crianças no set, como a integrante do elenco de apoio Ravena Kulnig, dão força moral à interpretação do ator, que leva nas mãos o sino que movimenta a trama.

A ralação, entretanto, era bem democrática. A equipe de câmera e direção também foi obrigada a realizar alguns sacrifícios para captar alguns planos de enquadramento difícil, como uma tomada realizada embaixo de um carro. Na foto abaixo, o Diretor Marcos Felipe se embrenha por baixo do automóvel com o ator Marcelo Batista, observados por Gustavo Nasr e pelo Assistente de Direção Marcos Herdade.

Para outros integrantes da equipe, entretanto, a maré nesse momento estava bem mais tranqüila. Na foto abaixo, o Diretor Marcial Renato, a Diretora de Arte e Figurinista Karin Kulnig e a Produtora Executiva Anna Carolina Monteiro de Barros posam para a câmera abrigados pela ótima sombra proporcionada pela cerca viva que circunda o estacionamento do shopping.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Produzindo objetos no próprio shopping

Além de servir como locação para a maioria das cenas, o apoio do RIOSHOPPING também foi fundamental para outro departamento do filme DIA DE PRETO: a produção de arte. Muitos objetos que estão em cena foram emprestados pelos lojistas, e podem ser conferidos em diversos momentos da trama. Na sala de segurança, por exemplo, está lá a luminária verde cedida pela RIO’S LIGHT (foto acima e ao lado), que também forneceu outros itens para a equipe de fotografia e produção, como lâmpadas e conversores.

Já o banheiro da sala de segurança (foto acima) foi decorado com espelhos e quadros emprestados pela loja PAUL BANNYON, especializada em artigos para banho (foto abaixo). Quase todos os cenários do filme têm algum item produzido no próprio shopping, o que consistiu num dos principais trunfos da produção. Afinal, nada mais conveniente do que ter à disposição, na própria locação do filme, uma boa variedade de produtos e serviços.

Dos objetos de cena utilizados, um dos mais marcantes é o quadro de Elvis Presley que enfeita uma das paredes da toca subterrânea do shopping center, onde vive o enigmático personagem vivido pelo ator Raul Ferreira (foto acima). Por incrível que pareça, o quadro não foi emprestado por uma galeria de arte ou loja de música, e nem mesmo estava à venda. A peça decorava a loja Eros & Psiquê, uma sex shop (!?), figurando entre vídeos, revistas, calcinhas comestíveis e outros apetrechos eróticos, e logo despertou a atenção dos Diretores de Arte Claudão e Karin Kulnig, que posicionaram o quadro (foto abaixo) com destaque em diversos momentos da cena.