quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um ano e meio no shopping

Passar as madrugadas dos finais de semana no shopping, durante mais de um ano, tornou a equipe de produção do filme DIA DE PRETO muito próxima dos funcionários, lojistas e clientes do RIOSHOPPING, que “compraram” a ideia e apoiaram a realização do projeto. Nos dias de gravação, a equipe jantava no Restaurante Tacacá entre 19h e 20h30, antes de começar a preparar o primeiro set do dia, que deveria estar pronto às 22h, fim do expediente no shopping e início oficial das gravações. Nas primeiras horas de trabalho da madrugada, algumas cenas necessitavam da participação dos próprios lojistas, para o posicionamento da câmera ou dos refletores (foto acima). Em alguns momentos do filme, os espaços e lojas do shopping serviram de locação para cenas inteiras.

O clima nos bastidores era clichê-família. Na foto ao lado, o Diretor Daniel Mattos posa com Paula Wetzel numa das madrugadas em que ela acompanhou o marido no trabalho. Amigos, parentes, colegas de trabalho, alunos e mesmo curiosos fizeram companhia à equipe durante a fase de produção, das noturnas frias no Bosque da Freguesia em junho ao calor tropical do estacionamento do shopping em outubro.


No último dia de gravação no shopping, com a base de produção quase desocupada, Marcelo Batista, numa das últimas vezes que vestiria o figurino completo do Preto, posou no camarim do mezanino com a estátua de São Judas Tadeu, o “padroeiro das causas impossíveis”. Por incrível que pareça, a imagem do Santo já estava numa prateleira do mezanino quando a loja foi cedida pela administração do shopping, e permaneceu lá após a conclusão do trabalho. A missão estava cumprida. São Judas poderia partir para outra.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Pesquisando sobre o Século XVII

A pesquisa realizada para a recriação dos ambientes de um engenho de cana de açúcar no Rio de Janeiro em 1661 revelou detalhes da tecnologia da época, com impacto direto na produção de arte. Velas de parafina branca são um luxo moderno. No século XVII, muitas velas eram feitas de sebo, gordura animal, e fediam como tal. E eram um pouco mais escuras, amarronzadas, como no quadro ao lado, “Madalena” (1638-43), de Georges de La Tour. No DIA DE PRETO, as velas modernas foram caracterizadas com betume, ficando “bronzeadas” para as cenas no cruzeiro ou na mesa do Senhor de Engenho, no Século XVII.

Muitas referências para o figurino do filme estavam em “O Novo Mundo”, de Terrence Malick (foto acima, com Colin Farrel), saga contemporânea, na América do Norte, da lenda do primeiro escravo alforriado do Brasil. O estilo desgastado, sujo, realista era um modelo a ser perseguido na customização das peças cedidas pelo cineasta Oswaldo Caldeira e pela produtora Paula Martinez, do filme “Tiradentes” (1999), que retrata uma época posterior. A equipe de arte tingiu, cortou, desfiou e manchou algumas roupas, redesenhou outras e finalizou o acabamento com alguma poeira cenográfica.

A reconstituição de um cenário interior, a sala do Senhor de Engenho, também foi objeto da pesquisa de arte. O tom desejado pela direção deveria ser “alegremente contido, embora menos displicente” que os ambientes representados nos quadros do holandês Adriaen van Ostade, como esse auto-retrato ao lado, de 1663, apenas dois anos após os fatos ocorridos no DIA DE PRETO. No Brasil, vidros não eram exatamente corriqueiros, licença poética assumida pela produção, por motivos estéticos, narrativos e práticos. Mas o interior mostra uma sobriedade de formas e móveis fixos que de certa forma contrastam com a variedade de utensílios e objetos de cena.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Base de Produção

No desenho de produção do filme DIA DE PRETO, manter uma base na locação de mais de oitenta por cento das cenas foi um fator decisivo. De setembro de 2006 a novembro de 2007, uma das lojas do segundo piso do RIOSHOPPING (na foto acima, o Diretor Marcos Felipe atravessa a Praça de Alimentação do shopping, próxima à loja-base de produção) foi tomada por todo o tipo de equipamento necessário para uma produção audiovisual. Desde cabos, refletores e trilhos, entre carpetes e portais cenográficos, armazenados no primeiro piso, até figurinos, objetos de cena, material de limpeza e documentos da produção, guardados no camarim montado no mezanino da loja.

Na foto acima, a Diretora de Arte e Figurinista Karin Kulnig arruma as roupas do elenco na “arara” improvisada no camarim. Durante a fase de produção, parte da equipe passou mais tempo no mezanino, nas atividades de preparação e desprodução, do que propriamente no set, geralmente montado num corredor, no banheiro, no terraço etc. Outra parte do time, entretanto, tinha de estar presente nas diversas frentes da câmera, atravessando caminhos literalmente estreitos, como os Diretores Daniel Mattos e Marcos Felipe na foto ao lado, no terraço do RIOSHOPPING.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Referências: últimos comentários

O DIA DE PRETO também tem os seus momentos contemplativos. Como nos filmes de Terrence Malick, sobretudo “Além da Linha Vermelha” (foto acima), a paisagem é mais do que um pano de fundo. O “meio” se torna um personagem importante, ganha tempo na tela. Tanto os corredores do shopping, revelados em detalhe, quanto as externas em locações difíceis, como um cânion ou um penhasco, são valorizados na trama, interagindo com os outros “atores”.

O grande estudo de referências usadas no desenvolvimento do roteiro foi aproveitado em quase todos os aspectos do filme: na preparação do elenco, na arte, na dramaturgia, na música etc. Embora a maior parte dessas influências tenha se dado de forma difusa, algumas das citações são explícitas, como a de uma cena de “De Volta para o Futuro 2” (foto acima), de Robert Zemeckis, que ganha uma versão malandra numa das perseguições no DIA DE PRETO.

domingo, 17 de julho de 2011

Referências para arte e trilha musical


Além da trilha de Ennio Morricone, os faroestes de Sergio Leone também serviram de referência para outros elementos no DIA DE PRETO. O uso de cartelas com os nomes dos personagens em “Três Homens em Conflito” (cartaz acima) é quase tão marcante quanto o refrão assobiado da trilha, vinheta hoje associada de modo genérico aos filmes de Velho Oeste, ou a qualquer tipo de duelo. Nas cenas diurnas realizadas no estacionamento do shopping estão presentes alguns ingredientes do ritmo e dos enquadramentos de Leone, e até uma paródia do assobio icônico, que não poderia faltar. Destacando ainda a influência do filme na composição dos personagens do “Preto”, vivido por Marcelo Batista, que herda do Blondie de Clint Eastwood certa solidão aventureira, e do “Corno” interpretado por Guilherme Almeida, que emula algumas características do terrível “Olhos de Anjo” personificado por Lee Van Cleef.
Para a Direção de Arte, “Cidade dos Sonhos” (imagem acima) foi uma forte referência para a composição da Sala de Segurança do shopping, destaque nas cenas em que o Preto é aterrorizado pelo Chefe (Ricardo Bonaverti) num simples ato de servir um cafezinho. Mas o filme de David Lynch também empresta à trama do DIA DE PRETO outros elementos de surrealismo, complementados pelo estranhamento kitsch de “Quero Ser John Malkovich”, de Spike Jonze. Elementos presentes também no “Clube da Luta” de David Fincher, com sua corja de terroristas urbanos, tão dispostos a urinar na feijoada alheia quanto a demolir prédios. A toca subterrânea onde habita um tipo inesperado de parasita da sociedade de consumo, inquilino desconhecido pelo shopping center, é uma mistura da fábrica de sabão à base de gordura humana do “Clube” de Fincher com o andar “sete e meio” criado por Charlie Kaufman para o filme de Jonze.

sábado, 16 de julho de 2011

As primeiras referências do roteiro

O primeiro tratamento do roteiro contava a história de um jovem que não conseguia sair de um shopping center numa madrugada. Era o projeto desenvolvido do argumento inicial de uma aventura misturando “Indiana Jones”, de Spielberg, e “Depois de Horas”, de Scorsese, toda passada num shopping, envolvendo um anti-herói, uma jóia, uma mulher, um velho, uma gangue e algum tipo de organização secreta com rituais macabros. Durante o desenvolvimento, a parte mais acrobática da trama (nomeada então “Batanka”) foi perdendo espaço para o conceito do shopping como uma ratoeira maravilhosa, no estilo da Manhattan que arrasta o personagem de Griffin Dunne noite adentro (cartaz acima). Nascia o projeto “Depois do Shopping”.
O desenvolvimento posterior até o último tratamento acabou destacando influências que já estavam presentes no primeiro roteiro, como “Curtindo a Vida Adoidado”, de John Hughes (cartaz acima), fortalecendo a personalidade do protagonista do filme como “O Cara”, do tipo que dá nó em pingo d’água. Outras foram se adicionando ao longo do processo criativo, como “Além da Linha Vermelha”, de Terrence Malick, “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, “Quero Ser John Malkovitch”, de Spike Jonze, e os faroestes spaghetti de Sergio Leone, especialmente “Três Homens em Conflito”, cuja trilha musical composta por Ennio Morricone é grande fonte de inspiração para os climas de algumas muitas cenas do filme DIA DE PRETO. De citação explícita ao filme de Scorsese, permaneceu no roteiro final apenas uma cena no banheiro do shopping, que os espectadores mais atentos poderão perceber.



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Referências: o chefe e o parasita

Para finalizar as referências de elenco apresentadas no workshop de preparação do filme DIA DE PRETO, temos dois personagens que ultrapassam o limite da sanidade mental e conferem um toque de surrealismo à trama: o Chefe de Segurança do Shopping, interpretado por Ricardo Bonaverti, e o indecifrável eremita que habita os subterrâneos do centro comercial, vivido por Raul Ferreira. O primeiro deles foi inspirado abertamente numa cena específica do filme “Sem Licença para Dirigir”, de Greg Beeman. Na cena, o avaliador interpretado por James Avery (na montagem acima com Ricardo) aterroriza o personagem de Corey Haim, colocando num copo de café toda a responsabilidade pela aprovação ou não do rapaz num teste de direção. No DIA DE PRETO, uma caneca de café também protagoniza uma cena ao mesmo tempo tensa e hilariante com o Preto e o Chefe, referência explícita dessa comédia adolescente dos anos 80, verdadeiro clássico da sessão da tarde. Outro tipo que serviu para a caracterização do Chefe foi o truculento Sargento Emil Foley de Louis Gosset Jr. em “A Força do Destino”, de Taylor Hackford, um perseguidor implacável do personagem de Richard Gere.
Já o personagem de Raul Ferreira é uma homenagem a alguns dos tipos mais bizarros do cinema, a começar pelo Tyler Durden de Brad Pitt em “Clube da Luta” (na montagem acima com Raul). No filme de David Fincher, Tyler habita uma mansão em ruínas com um grupo de seguidores fiéis, tramando planos diabólicos contra o “sistema”, para no final revelar a verdade da trama para o protagonista vivido por Edward Norton. No DIA DE PRETO, Raul Ferreira é uma espécie de parasita da sociedade de consumo, vivendo dos restos do shopping center numa toca subterrânea, e também tem um papel importante no desenrolar do mistério que move a história. A toca, por sua vez, também bebe na fonte do “andar sete e meio” de “Quero Ser John Malkovich”, de Spike Jonze, local surreal onde trabalha o personagem de John Cusack. Improvável depósito de quinquilharias e dejetos, a morada de Raul mistura todo o conforto e a porcaria do consumismo moderno, de onde o personagem só sai para se aproveitar, durante a madrugada, dos produtos e serviços que o shopping pode lhe oferecer gratuitamente enquanto está fechado para o público.