quinta-feira, 28 de julho de 2011

O sino da vaca

Além do cruzeiro do Engenho D’Água, há outro elemento fictício de grande importância na trama: o sino da vaca, a relíquia sagrada roubada pela filha do Patrão, com a ajuda do Preto. Na foto acima, o personagem de Marcelo Batista olha fixamente para o sino, como quem vislumbra alguma chance de liberdade. Pivô dos acontecimentos que conduzem o protagonista por uma madrugada absurda, o sino é um objeto-fetiche com muitos sentidos, que os espectadores poderão descobrir cena a cena.

Nas pesquisas para a preparação da arte, definiu-se que a aparência do sino não deveria seguir o design de um típico “sincerro” (cowbell), sino para localização de gado, com a forma de um trapézio. A peça-chave do filme, por motivos simbólicos, deveria ter o mesmo desenho de um sino de campanário de Igreja, com seu formato sinuoso característico, exatamente como o exemplar dourado utilizado no DIA DE PRETO (detalhe acima). Assim feito, o objeto atravessa os mais de três séculos da trama, com sutis diferenças de caracterização: um pouco gasto e arranhado no Século XVII, restaurado e brilhante nos dias de hoje.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

As aparições da Santa

Além da “aparição” miraculosa para um escravo, a imagem de Nossa Senhora também se faz presente em duas outras referências no DIA DE PRETO. A Virgem Maria está no chaveiro do puma amarelo do personagem de Marcelo Batista (foto acima), numa das cenas realizadas no estacionamento do shopping, e tem papel marcante nos momentos em que o Preto encontra o velho e fictício Cruzeiro do Engenho D’Água.

Para a caracterização do Cruzeiro atravessando as épocas, foram utilizadas duas estátuas de Nossa Senhora da Penna. No passado colonial, o Cruzeiro feito de pedra caiada, com suas velas escuras feitas de sebo, mostra a estátua da Santa desgastada, lavada, curtida. No século XXI, o limo do bosque úmido cobre a pedra do Cruzeiro, bruta e gasta. Mas a imagem de Nossa Senhora está restaurada, impecável entre as elegantes velas de parafina industrial branquíssima (acima).

terça-feira, 26 de julho de 2011

Ralando nas madrugadas

Pode parecer um mendigo na sarjeta, às portas de um botequim fechado, mas a foto acima mostra o diretor Marcial Renato dormindo pelos corredores do shopping, nos colchões “de campanha” disponibilizados pela produção exatamente para esse fim. Para os mortos de cansaço, a outra opção, mais confortável, era o camarim no mezanino da base de produção, que às vezes estava longe demais do set montado para a filmagem.

Na fase de produção, algumas cenas extravagantes marcaram as madrugadas do RIOSHOPPING. Pessoas dormindo pelos corredores, empurrando carrinhos, falando sozinhas, iluminando tudo. Nos primeiros meses, amigos, familiares e curiosos juntavam-se à equipe nas maratonas de trabalho noturno. Nos últimos, a freqüência de espectadores e incentivadores diminuiu a zero, tornando mais radical a sensação de confinamento, o que gerou comportamentos estranhos em parte da equipe, como o diretor Daniel Mattos, que na foto acima ergue uma vara de boom imaginária.

Para as longas jornadas de espera, muitas vezes a solução era o laptop conectado à Internet, operado na foto ao lado pelo assistente de direção Leandro Baseggio. Ao fundo, o lanche da madrugada também cumpria a missão de espantar o sono da equipe com altas doses de cafeína, quente e fria.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Alimentação, maquiagem e produção

Durante a fase de produção realizada no RIOSHOPPING, logo após o encerramento do horário comercial, algumas lojas se transformavam em verdadeiros “departamentos” do filme, além daquela cedida pela administração para servir de base e armazém. O expediente começava no Tacacá, restaurante parceiro no fornecimento de alimentação para a equipe e o elenco (na foto acima, o ator Ricardo Bonaverti posa ao lado da Diretora de Arte e Figurinista Karin Kulnig e da Caracterizadora Kris Kulnig, com a filha Julia no colo), e de lá seguia para outros locais do shopping.


Alguns dos personagens, como o Chefe vivido por Ricardo, tinham parte da caracterização realizada no Tartari Coiffeur, centro de estética que também serviu como locação para uma das cenas do filme. Lá, o ator recebia os cuidados do cabeleireiro Sena (foto ao lado) e o resto da equipe do salão, de forma a garantir o visual aprovado pela Direção. Comparado ao camarim improvisado na base de produção, o apoio do Tartari era um choque de realidade, com todo o conforto e os equipamentos necessários para a preparação do elenco.



Alimentados, vestidos e maquiados, os integrantes do elenco estavam disponíveis para o set por volta das 22h, quando o shopping fechava as portas. Na foto ao lado, Ricardo Bonaverti aparece caracterizado como o Chefe de Segurança do shopping: estilo militar no corte de cabelo e no traje com insígnia de honra, e a expressão carrancuda de quem está louco para aterrorizar o Preto, vivido por Marcelo Batista.

domingo, 24 de julho de 2011

Produtores independentes, servidores públicos

Sob a ótica dos realizadores (na foto acima, Marcos Felipe e Daniel Mattos acompanham uma cena pelo monitor) e agora servidores públicos, a Ancine - Agência Nacional do Cinema, criada em 2001, vem se fortalecendo institucionalmente e começa a apresentar resultados concretos no fomento e regulação do mercado do cinema brasileiro. O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), secretariado pela Agência, apresenta critérios públicos definidos para a seleção dos projetos, e os relatórios de análise e avaliação são disponibilizados aos proponentes. Um mecanismo muito mais transparente que o modelo tradicional de seleção de projetos para incentivo fiscal numa empresa privada ou nos demais editais públicos, com suas comissões caixa-preta. No FSA, o trabalho de seleção e decisão de investimento tem orientação técnica, fundamentada nas diretrizes e critérios deliberados por um Comitê Gestor com participantes do Governo, da Agência e do Setor Audiovisual.

O Diretor Marcial Renato lamenta, brincando, que uma entidade pública voltada para o audiovisual, e Fundos como o FSA tenham demorado tanto para surgir. Se o FSA existisse na época em que o primeiro projeto da DEMIAN foi desenvolvido, talvez o DIA DE PRETO nem existisse (na foto acima, detalhe de um restaurante no shopping, um dos cenários do filme). Mas as negativas de empresas públicas ou privadas e suas comissões de notáveis, quando eram comunicadas, não apresentavam qualquer justificativa específica, no máximo uma carta ou e-mail com texto-padrão. Muitas vezes, o projeto era sequer apresentado, ficando pela sala de recepção das empresas.

Na dupla perspectiva de produtores realmente independentes e servidores públicos concursados (na foto acima, a sombra de Marcos Felipe no cruzeiro original da Igreja de Nossa Senhora da Penna, em pesquisa realizada na fase de pré-produção), os realizadores do filme DIA DE PRETO procuram contribuir para a importante discussão sobre os rumos da política setorial que hoje se dá no âmbito da sociedade, do Governo, da Ancine e de outras instituições e agentes do setor, pela saúde do mercado e pela defesa de nossa identidade audiovisual.

sábado, 23 de julho de 2011

A produção em Ipiabas

As gravações das cenas de época do filme DIA DE PRETO aconteceram na localidade de Ipiabas, entre Barra do Piraí e Conservatória, na região do Vale do Paraíba, no Estado do Rio. Num final de semana de cinco dias, a equipe estabeleceu sua base de produção na Pousada do Castelo, simpático hotel com atrações para todas as idades. Na foto acima, Ravena Kulnig brinca com um cavalo de madeira da pousada, que ainda oferecia casa na árvore e casa de bonecas.

Além dos carros particulares usados na produção, a equipe contava com um caminhão-baú para a guarda e transporte dos equipamentos, e uma van que transportou parte do elenco e da equipe no trajeto de ida e volta para o Rio de Janeiro. Na foto acima, o ator Marcelo Batista e Diretora de Arte e Figurinista Karin Kulnig aparecem em primeiro plano. Ao fundo, o Maquinista Carlitos e a Assistente de Produção Renata Alves.


Uma das peças transportadas no caminhão-baú foi o cruzeiro, que aparece na trama atravessando os séculos, de pedra caiada e com velas escuras de sebo no século XVII (foto ao lado, com as velas ainda apagadas) ou de pedra com limo e velas de parafina industrial no século XXI. Nas cenas realizadas em Ipiabas, a caracterização do cruzeiro ficou a cargo de Karin e Marcial (foto acima), enquanto o resto da equipe se ocupava da árdua tarefa de colocar em cena uma vaca teimosa.


No vídeo abaixo, você confere um clipe com um dia de gravação na fazenda São João da Prosperidade, em Ipiabas. Imagens de Marcial Renato e Karin Kulnig e Trilha musical de V12 Music:


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Especialistas em cinema

Após dez anos de experiência em fotografia e direção de filmes publicitários, o Diretor Marcos Felipe (na foto acima com o Diretor de Fotografia Gustavo Nasr e o ator Marcelo Batista, numa das locações do DIA DE PRETO) iniciou sua carreira de especialista em regulação da atividade cinematográfica e audiovisual em 2006, quando o filme entrou em produção. Na Ancine, Marcos pôde conhecer por dentro o sistema de financiamento público de orçamentos muitas vezes inflados e resultados comerciais modestos. Um sistema excludente, onde os poucos bem relacionados, com ou sem mérito, captam muito, e os muitos marginalizados do circuito de editais de fomento e leis de incentivo, a despeito da qualidade de seus projetos, captam nada, ou muito pouco.

Os demais Produtores e Diretores do filme DIA DE PRETO, Daniel Mattos e Marcial Renato (na foto acima no mesmo set, num cânion no Rio de Janeiro), atualmente, também são servidores concursados da Agência Nacional do Cinema, desde 2009. Antes do serviço público, Daniel enveredou pela Academia, lecionando e coordenando cursos universitários de Comunicação Social. Marcial trabalhava como Produtor na TV Globo desde 2001, e em 2006 coordenava a equipe de Internet da Central Globo de Produção, no Projac. Juntos, os três levantaram recursos para a produção de um filme de longa-metragem que tenta superar a dicotomia entre “filmes de arte” e “filmes de público”, conjugando a motivação artística dos realizadores com a lógica econômica de um mercado desejavelmente autossustentável.